OFICINA: TIPOGRAFIA SEM MISTÉRIOS
O Designer Gráfico Ricardo Mayer, estará no Orbitato realizando a Oficina de Tipografia (escolha e criação de fontes). Mayer é Designer gráfico há mais de 20 anos, formado em comunicação visual em Santa Maria/RS e Pós-graduado em Gestão de Embalagem pela ESPM em São Paulo, onde reside há 12 anos. Por ter começado a trabalhar muito antes de se usarem computadores no design, já desenhou muita letra com régua, compasso e as temidas curvas francesas. É o criador da marca do Orbitato. Seu portifólio pode ser visto no site: http://www.ricardomayer.com/
Conheça também o blog TIPOMODA: http://tipomoda.blogspot.com Tipografia e moda. Soluções criativas. Tipografia experimental. Marcas fortes. Um blog dedicado a comentar aplicações tipográficas em moda e acessórios.
A oficina tem carga horária de 14 horas e acontece nos dias 31/05 e 01/06, das 09 às 12h e das 14 às 18h, na sede do Orbitato - Instituto de Arquitetura Moda e Design, na Rua 21 de Janeiro, 2150, Centro - Pomerode, Parque de Eventos. O investimento é de R$ 200,00 e R$ 160,00, para estudantes.
ENTREVISTA COM RICARDO MAYER:
Quando você se interessou por letras?
Desde criança eu gostava de desenhar letras e as observava em todo o lugar.
Quando eu fiz faculdade de design gráfico nos anos 80 aprendi mais ou menos o seguinte: existem fontes com serifa, sem serifa e fontes fantasia. E ponto. E é claro, as técnicas de composição e reprodução.
Depois disso por necessidade e por curiosidade eu fui descobrindo o restante: quem, o que, como, quando, onde e por que.
Acho os porquês fascinantes. São a parte mais rica da história, nos fazem compreender por que existe um menu imenso de fontes à disposição no computador e tantas outras que se pode comprar ou baixar grátis na internet. Tantas fontes diferentes não existem meramente por estilo, porque alguém resolveu acrescentar um detalhe aqui, outro ali. É claro que isso também pode acontecer, mas o mais importante é que por traz de tudo há uma história, existem as técnicas e as idéias. Sim, fontes também são fruto das idéias e mudam junto com elas, mudam com o mundo.
Qual a importância da tipografia?
Olhe para qualquer lado e você verá uma palavra escrita sobre alguma coisa. A escrita é uma das grandes invenções humanas, definiu os rumos da civilização. Toda palavra escrita tem uma forma e esta forma é resultado de escolhas técnicas mas também estéticas, portanto ideológicas. Por isso, eu não acredito em neutralidade. Há uma inter-relação da forma com o conteúdo. A tipografia é importante porque dá forma à escrita. Seja em uma placa de trânsito com a palavra PARE ou em um site com bilhões de palavras, a fonte vai expressar algo que pode ser coerente com a informação e com a função do texto mas que, não raro, pode ser conflitante ou gerar ruído.
Os computadores mudaram muito a relação das pessoas com as letras?
Umas das grandes mudanças é que os computadores tornaram as fontes acessíveis a todo o mundo. Mesmo quem trabalha somente com Word ou Power Point num escritório se vê obrigado a escolher entre Times, Verdana, Arial, etc. - um problema que não existia nas máquinas de escrever mecânicas.
Então, cada vez mais pessoas trabalham com fontes mas poucas as compreendem verdadeiramente.
Antes da informatização dos processos criativos, a tipografia era praticamente um artesanato. Demorava-se muito a fazer qualquer coisa e tinha-se mais tempo para pensar a respeito. Hoje, temos que tomar decisões mais rápidas, com muito mais opções. Aí começam a faltar parâmetros e baixa muito a qualidade estética.
No seu trabalho, a tipografia tem grande importância, então?
Sim. Acho que pela falta de recursos quando comecei a trabalhar no interior do RS: não se podia usar fotos coloridas, por exemplo, eu acabei desenvolvendo um sensibilidade para as letras que eventualmente seriam tudo num projeto. Então era necessário usar bem, fazer o melhor com elas, explorar ao máximo o pouco que se tinha. Desenhei muita letra, geralmente para adaptar o que existia ao que eu precisava, principalmente para fazer logos. Logos com letras comuns ficam sem personalidade, mas se as letras forem muito estranhas pode ficar confuso. Tem que ter equilíbrio e adequação ao público.
E como era trabalhar com design gráfico sem computador?
Era muito mais complicado, imagine... Mas, também, a gente tinha uma relação mais íntima com as coisas, com as cores, com as letras pois era uma relação física mesmo e não virtual. Isso dá muito mais consistência ao que se produz. Vejo que muitos se tornam designers por gostar de trabalhar com computador. Mas, exceto no webdesign, tudo mais é projetado para existir fora do computador. Então, temos que lidar com a materialidade das coisas. A tipografia já existia muito antes do computador... Por isso, no workshop vou colocar o pessoal para trabalhar com recursos mínimos.
É sempre um exercício muito estimulante.
Como você vê o design gráfico nas indústrias?
Acho muito bacana que as empresas contratem designers gráficos para suas equipes de criação porque a o desenvolvimento de produto fica mais rico quando se têm diversas contribuições. Mas acho importante que este profissionais não sejam apenas operadores de programas gráficos, mas que também se dediquem à pesquisa, à criação e que estejam ligados no que acontece no mundo.
Qual é a importância da tipografia para quem trabalha com moda?
A tipografia é um dos elementos que contribuem para a construção de uma linguagem de um conceito, não só pela informação escrita mas também pela expressão formal que vai formar a unidade de cada coleção.
Na indústria da moda, eu vejo que a tipografia está presente como estampa nas próprias peças, como etiqueta e nos instrumentos de marketing como catálogos e anúncios. Em todas estas situações, as fontes usadas podem ter uma grande contribuição tanto para o refinamento do produto quanto para uma comunicação eficiente com os consumidores.
Acho curioso quando a fonte tem mais importância que o texto. É o caso das camisetas onde as letras têm uma função decorativa. Habituamo-nos a palavras sem importância, geralmente em inglês, que a maioria das pessoas não entende, e mesmo quem entende não lê. Então, o visual é o que predomina, não importa o que está escrito. É uma comunicação não-verbal que usa palavras - mais uma contradição da pós-modernidade.
Como você vê a tipografia na moda brasileira hoje?
Posso observar que há marcas que produzem coisas interessantes, onde há bastante elaboração, outras seguem repetindo fórmulas, o que eu acho uma pena porque às vezes se tem um produto bem elaborado em outros aspectos como cores, tecidos e modelagem, mas pecam no que é considerado secundário. Vejam que em outros países, como os Estados Unidos, que exploram muito a tipografia no vestuário, isso não é secundário, é muitas vezes um elemento central, é o que faz o produto vender. Por isso é bem elaborado.
Você acha que no Brasil se repete muito o que é feito lá fora?
Sim, mas isto está mudando. Como nas outra áreas do design, está se construindo uma linguagem brasileira muito forte e que está sendo absorvida pelo mercado externo. Isso começou a acontecer quando os designers começaram a olhar mais para o país e menos para fora. E quanto mais nos dedicarmos nesta busca, mais identidade haverá no nosso produto.
Mas temos que tomar alguns cuidados quando se fala em linguagem brasileira, pois não há como rejeitar toda a bagagem externa que recebemos. O Brasil não é uma ilha isolada no mundo, além de ter muitas realidades diferentes. Temos que fazer trocas, tanto internas quanto externas. O que mudou é que de uns anos para cá começamos a exportar influências, não só receber.
Essa imagem que eu forneci para a divulgação, por exemplo, é fruto de uma pesquisa que fiz nas ruas de São Paulo sobre letras stêncil, observando como uma técnica tão limitada traz resultados muito interessantes e que expressam muito bem o caos da cidade. É uma manifestação tipográfica muito contemporânea e bem brasileira, fruto de uma de nossas tantas realidades diferentes.
O que espera do seu workshop no Orbitato?
Espero contribuir para o Instituto e os profissionais e estudantes da região levando um pouco da minha experiência profissional. Acho importante sensibilizar as pessoas sobre este aspecto do design que é pouco valorizado. Isso vai tornar o trabalho tipográfico mais interessante e vai ser muito útil no dia-a-dia profissional de todos que participarem.
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